Um estudo recém-publicado nos EUA identificou o vírus que parece ser o
causador de uma doença fatal que afeta cobras em cativeiro, fazendo com que
elas deem nós em si mesmas e percam seu controle motor.
O mal, chamado Doença do Corpúsculo de Inclusão Viral (IBD, na sigla em
inglês), existe há décadas, mas não tem cura e atinge cobras constritoras como
jiboias e sucuris.
Quando doentes, essas cobras passam a adotar um comportamento estranho,
como ficar olhando fixamente para o céu, girar e até enrolar-se em nós. E, uma
vez que estejam presas em si mesmas, elas não conseguem se desatar. A doença
causa problemas respiratórios e uma paralisia muscular generalizada.
Há tempos suspeitava-se que o mal era causado por um vírus, mas até
recentemente a natureza da doença era desconhecida. Agora, uma pesquisa feita
por cientistas da Universidade da Califórnia em São Francisco, publicada no
periódico mBio, acredita ter identificado o vírus, ao analisar amostras tiradas
de cobras diagnosticadas com o IBD, usando técnicas de sequenciamento de DNA.
Origens - Em algumas das cobras identificou-se material genético estranho – como
ácido nucleico -, parecido com o encontrado em vírus da família arenavírus.
Essa família inclui vírus associados à febre hemorrágica em humanos. Mas não há
nenhum indício de que esse vírus recém-descoberto possa passar de cobras a
humanos. Os cientistas também conseguiram cultivar o vírus, a partir de amostras
tiradas de uma das cobras.
O pesquisador Mark Stenglein, coautor do estudo, disse que “ainda não há
evidência formal de que o vírus cause a doença, mas há uma boa correlação
(entre o mal e a presença do vírus). Também é possível que outros vírus ou
patógenos causem sintomas parecidos”.
Os arenavírus podem ser divididos em dois grupos principais, com base na
localização das espécies que eles afetam – vírus Novo Mundo vêm das Américas, e
vírus Velho Mundo são encontrados na África e na Ásia. Geneticamente, porém, o
vírus recém-descoberto é diferente desses dois grupos.
O editor do periódico, Michael Buchmeier, professor de doenças
infecciosas na Universidade da Califórnia em Irvine, acredita que os vírus das
cobras podem vir de vírus que precederam as ramificações Novo e Velho Mundo.
A nova descoberta segue-se a uma pesquisa semelhante, publicada online
em abril de 2012 no periódico Infection, Genetics and Evolution, descrevendo o
isolamento de um novo vírus que afeta cobras – este na Austrália -, mostrando
sintomas bem parecidos aos do IBD. No entanto, o vírus isolado nesse estudo
pertencia a uma família diferente, conhecida como paramixovírus.
Jim Welleham, professor da Faculdade de Veterinária da Universidade da
Flórida, autor do estudo do paramixovírus, disse que “a epidemiologia desse
vírus é diferente (do IBD)”. Mas ele também é fatal. “(O paramixovírus) age
rapidamente. Diversas cobras morreram em uma semana.”
Contagioso - Não está claro como o vírus do IBD se espalha, mas ele é altamente
contagioso entre cobras. Uma possível forma de transmissão é pela inalação –
seja diretamente de outra cobra contaminada ou indiretamente, de solo
contaminado ou pelo manuseio dos animais.
Por enquanto, a doença parece ser restrita a cobras em cativeiro. Mas
alguns cientistas temem que a soltura de cobras criadas cativas possa,
inadvertidamente, levar essa doença à natureza selvagem.
Já Wellehan opina que “esses vírus vêm infectando cobras atuais e seus
ancestrais por pelo menos 35 milhões de anos. É possível deduzir que cobras
selvagens também estão contaminadas”.
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